Quinta-feira, Março 01, 2012

«Não existe tempo»

Porque tudo tem de ser assim? Respiro, existo e não consigo sossegar. Tenho silenciado a vontade de te ver. Tenho silenciado a vontade pelos recantos dos dias onde vou deixando mensagens espalhadas como palavras em garrafas no mar corrido.

Estou neste sangue como naufrago. Pronto para te receber. Existo e sei que existes. Respiro e sei que respiras. Em meu redor a paisagem não se movimenta. É uma fotografia que se prolonga por longos minutos [o toque dos teus dedos nas minhas frágeis fronteiras / uma palavra solta que te prende o cabelo].
Palavras gravadas nestes muros que me dão guarida revivem soalheiros outonos [o topo das árvores um dia olhou-os como seus]. Ouço o bater das asas de um pássaro [qualquer escrito gosta de receber o voo de um pássaro] por dentro das veias como luz que nasce da partilha da cor.

No escrito existe uma janela. E existem os meus braços que anteciparão um dia o regresso do naufrágio. Prolongo-me para lá do espelho e observo a multidão, que se acotovela nos meus conflitos, a estilhaçar-se como apêndice da matéria.

Por entre o fogo da minha ilusão escorre a água pura e cega. Rasga-se o tecido humano. A vida está por aqui [envolta nas palavras que componho] no interior da desordem que é esta casa.

Constrangido por tempestades tatuadas nos ombros [livre das horas perdidas sem promessas nem abrigos] de novo percorro vagarosamente as margens de rios por entre as linhas das minhas mãos.

Fecho os olhos e penso: quanto tempo mais? Mas na verdade não existe tempo nem idade, nem existe sono para quem se quer vivo.
in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
Foto de «Francisco»

3 comentários:

espinhos e outras flores disse...

Para lá do intenso, mais do que belo!...

Lys Fernanda disse...

Uau, quanta intensidade, estou boquiaberta. *-*

Anónimo disse...

Sofrimento em silêncio,
Reflexão e procura do seu Eu
Medo da solidão
Lindo, muito intenso