Sábado, Novembro 14, 2009

«A Palavra»

(...) Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? como se desfez? ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.

in «Para Sempre» de «Vergílio Ferreira»
foto de «Andreas Heumann»

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

«O Carrossel»

Por entre a multidão, o Carrossel desceu à cidade e as emoções estacionaram perante a surpresa do festejo. Ecoaram pelas avenidas as irrecusáveis concertinas. Num repente todas as fugas convergiram para ilhas que transbordaram em sorrisos. E todos esses abrigos abarrotaram de embriagados que dançaram violinos.

Por minutos ou mesmo horas, o silêncio suspendeu a sua labuta, e corações, tantos, remendaram-se entre si numa fileira desmesurada. A cidade emocionou-se e, em lágrimas, vestiu-se com esses corações. O Carrossel fez múltiplas viagens onde, por entre fantasias diversas, anunciava: “é andar, é andar, no Carrossel mágico sem parar”. Era tanto o encanto, que se projectavam almas, por entre árvores que rodopiavam envoltas no som inebriante dos acordeões.

E eram sorrisos, corações remendados, árvores e almas, todos inteiros, tantos, às voltas e voltas, enquanto nas avenidas ecoavam as irrecusáveis concertinas e os inebriantes acordeões. E assim, por minutos ou mesmo horas, os corações somente se extasiaram. Unicamente.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Alex Bamford»

Escrito ao som de "Devotcha" - "How it Ends"

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

«A Partilha»

Existem dias assim. Dias em que toda a humanidade se recolhe nas minhas emoções e sinto poder oferecer a melancolia que me veste e me ampara o sono. Nestes dias, libertam-se os dedos à procura de quem aceite trocá-los. Eu gosto de trocar os dedos e oferecer conchas multicores onde se possam escutar canções de bem-querer e amizade.

Provavelmente não saberei sorrir com os olhos ou oferecer os melhores músculos do rosto. Talvez este despovoado que comigo dança há já tanto sangue, afaste os que duvidam.

Mas existem dias assim. Dias em que persisto na procura daqueles que acreditam na permuta da solidão que existe em cada um de nós. Partilhada. Cantada.

Antes dos afectos se encarquilharem de velhice nas margens do irreal. Existem dias assim. Dias em que ardo em silêncio e confio que a nossa gente será permissível ao sonho.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anne McAulay»

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

«Estio»

Se eu adormecer
não me censures

Sai
e deixa-me entregue
aos sonhos

Vai
sentar-te
no campo
onde
se morre maduro

E
espera-me
para treparmos

árvores
e colhermos
ninhos

in «Poesia» de «Daniel Faria»
foto de «Anna Pagnacco»

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

«O Sol»

A canção morrera.
O meu pensamento silenciava cidades e
o corpo que habitava o frio, procurou agasalho no teu futuro.

Sorriste.

Não me recordo de jardim tão belo.
Toquei-te a alma e cresceram-te anzóis no cabelo.

Mergulhei no rio, segui o seu caudal, inquietei todos os peixes.

No entretanto, enlouqueci.

Os teus braços prolongaram-se em busca do meu olhar.
O horizonte reflectiu as florestas que o teu desespero gerou.

Sendo testemunha, o Sol desejou beijar-nos e
inflamou searas à procura da minha sombra.

Tardiamente.

A solidão tinha saqueado todas as emoções.
Dedos cobertos de neve tinham fantasiado os meus dias.

Eu atormentara o destino e desfizera-me no tempo.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «LJAD Creyghton»

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

«a púrpura dos dias»

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra

nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.

in «Um Mover de Mão» de «Vasco gato»
foto de «Anno Pieterse»

Sábado, Outubro 31, 2009

«Esse Dia no Miradouro da Boca do Inferno»

Éramos jovens gostávamos acima de tudo de coisas simples
éramos cerca de trinta rapazes e raparigas
algumas coisas começavam em nós talvez o dia
talvez a vida talvez desajeitados gestos de paz
tínhamos ouvido vagamente falar da noite
onde um dia diziam se dissolveriam as linhas limites dos nossos vultos.
Não havia muitas palavras nas nossas bocas mas no entanto
amávamos o mar a lisa e leve superfície do silêncio a simplicidade das mãos
certos corpos verdes e tensos onde às vezes pensamos que
se situa a nascente da luz
a música da voz o brilho subitamente surpreendente nuns
olhos
coisas acerca das quais alguém a nosso lado falava talvez de
beleza.
Sabíamos muitíssimo pouco é muito difícil saber tão pouco
mas víamos às vezes nuvens sobre as cabeças de algumas pessoas
havia momentos em que nós próprios sentíamos o peso de
certas palavras
mas éramos jovens acima de tudo éramos jovialmente jovens
depressa secava o sangue porventura chamado à periferia
da nossa pele
e seguíamos porque se é certo que quase nada sabíamos
no fundo duvidávamos de que fossem verdadeiras palavras
seriam possivelmente pedras conglomerados de sons onde
o tempo teria cristalizado
coisas cobertas das vestes sombrias do medo tortuosas e tão
complicadas como ideias.
Nossa era a orquestra dos sonoros e suavíssimos instrumentos
das manhãs abertas
como corolas no espaço alegre das nossas frontes
nossa era a convivência das flores bravias
um momento despertas no descampado vasto dos nossos passos.
Habitávamos todos no principio de tudo onde todas as coisas
se nimbam de novidade e são naturais e não têm muito mais
que a inocência de haverem nascido
e parecem pedir desculpa por um dia sobressair acima da terra
e ocupar certo espaço e estar representadas talvez por um
nome nas relações entre os homens .
Opúnhamos ao tempo o peito e o vento vivia na vizinhança
dos nossos gestos
não havia um passado muito para além do discreto relevo dos
nossos ombros
dispúnhamos de um património facilmente inventariável de
ideias
e repousávamos sobre a frágil certeza de que estávamos vivos
e éramos jovens e desenhávamos passos inaugurais no
principio do mundo
e até o mar devia saber alguma coisa de nós
porque o mar parece também ser jovem e começar cada dia
a sua vida surpreendente.
Éramos cerca de trinta havia trinta perfis na madrugada
do mundo
bastava multiplicar por trinta e era assim muito fácil
chegar até nós
e depois era tudo tão simples como principiar.
O espaço da nossa amizade dava para as amplas areias
desertas
era junto do mar que nos sentíamos tão à vontade como o
vento
lá onde a alegria e a música jamais podem perturbar a
harmonia familiar
ou infringir o último parágrafo das leis da cidade interpretadas
mesmo no mais estrito sentido.
Não teríamos mais que a nossa alegria a nossa amizade a nossa
e a juventude
e éramos alegres amigos e jovens como quem é rico ou dispõe
do bastão nodoso da autoridade
ou tem a erudição inerente a quem esteve presente à inauguração
de muitas manhãs.
Esse dias conversámos dançámos tomámos coca-cola e cerveja
conversar dançar beber coca-cola e cerveja era essa noite
a maneira de sermos alegres amigos e jovens
era sermos do tamanho desses momentos em que o tempo roda
e parece quase parar.
A sombra desceu sobre as salas e a nossa amizade era branca
como a manhã
estávamos de pé caminhávamos havia na noite o mar
o mar não era agente da ordem senhora solteira e sozinha
gente bem pensante o mar
não tinha boas maneiras é sempre um grande desajeitado
surgiu na noite na nossa amizade chegou até nós na elevada
estatura daquela onda
levou seis de nós éramos cerca de trinta jovens alegres
um abraço entre nós tinha um tamanho maior que uma sala
maior que uma rua e agora
o tamanho de um abraço entre nós é bastante menor talvez
possa caber
numa sala numa rua qualquer da cidade num parágrafo em corpo
seis de alguma lei
num artigo do estatuto dos bombeiros voluntários de qualquer
vila
na vida pequena de gente bem pensante onde haverá a família
a farda o domingo
onde sobressai a grande aventura do beijo na face rechonchuda
e corada
da continência rasgada do rito escrupulosamente catalogado e
previsto
antes orçamentado e autorizado já através de diversos despachos.
Éramos cerca de trinta contávamos pois com cerca de trinta
não contávamos era com a expansiva talvez indiscreta amizade do
mar

in «Toda a Terra» de «Ruy Belo»
foto de «Elizabeth Zeschin»

Terça-feira, Outubro 27, 2009

«As Mãos»

Pedras caídas. Estantes ausentes. A solidão dos meus dias fez-se de acanhadas vitórias, mas quem as saboreou? Foram caminhos cegos os que percorri. Do que resgatei, permanece a sede, a vontade, a inocência. E o mesmo sangue que alimenta o coração.

Os rios e os ventos que em vão colhi são hoje miragens, espectros de uma vida suspensa em demasiados temores. Tanta responsabilidade embutida em sentimento. A divida. Como se a harmonia e o fôlego dos peixes dependesse de mim. Ouço as palavras que dançam no trovoar cíclico do comboio. Preenchimento do vazio em mim.

Hoje viajo pela vida. Observo a animação dos outros. As mãos, os sorrisos. Escuto. Tento dar ocupação aos sentidos. Permitir que os minutos sejam horas e as horas sejam mais do que uma única vida. Nunca terei tudo. Talvez não consiga flutuar. Mas a calma que estas mãos me ensinam é o chão que piso, são os planaltos e as montanhas que admito, em cada passo que dou.

Vejo-me a subir o Chiado, múltiplas vezes, e de todas elas, aprecio o recomeço. As canções, as palavras, a descoberta. Tão pouco e tão longe. A feira da ladra, bela, inocente. Os poemas, o Tejo, o sussurro. Estantes que se vão completando. Pedras que adquirem alma. Dedo a dedo. As mãos. Sublimes.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «LJAD Creyghton»

Domingo, Outubro 25, 2009

«Bicicletas»

Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou um remo de um bote.
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma.
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento

com mais clareza

afastam-se das certezas que perdemos

e da imensidão que se avista de lá


Um velho provérbio diz:

Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo

de uma estação clemente


in «O Viajante Sem Sono» de «José Tolentino Mendonça»
foto de «Anna Pagnacco»

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

«Trocar os Dedos»

Gota a gota a vida vai-me encharcando os ossos. Uma sucessão de Outonos embaraça o desejo que sinto ao imaginar a tua pele, as tuas palavras. Do tanto que vi, do tanto que vivi, nunca adivinhei a leveza dos dias claros.

O mistério dos meus dias tristes, revela-se nas canções pastorais que saciam o coração dos apaixonados. Já não pergunto porquê.

Ainda me restam alguns minutos, e a vida, com todas as suas danças e perfumes, tem tanto para roubar. Nesta ânsia de enganar o destino, namoro a sua grandeza. São os olhos que me agigantam a alma por entre as minhas searas. Mas, este ardor que me abraça o coração, não me permite habitar as tuas fronteiras.

E de tanto enlouquecer nestes círculos, são os olhos que se consomem no horizonte. Eu, que somente pretendo, por uma última vez ser Primavera, para colher-te em silêncio e cozer na minha pele o teu sorriso. Sem uma palavra. Abandonar-me simplesmente nos teus lábios. No mais comum dos actos.

Trocar os dedos.

Oferecer-te apenas o meu contentamento. E, assim, na companhia da paz que enfim atingirei, permitir que o esquecimento tome conta de mim.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Bob Miller»

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

«Flutuamos»

Fecho os olhos e vejo-te dançar, na companhia das cidades que te povoam o olhar, oferecendo a lua e o horizonte. Lentos fragmentos de piano protegem-me, abraçando-me no meu abandono. A tua beleza envolve o fogo e a música que se expande como uma doença em mim. A vida é uma profunda cicatriz e nós viajamo-la. Viajamos com os nossos fantasmas nos nossos desertos.

Flutuamos.

Bebemos vinho e o coração aquece. A pele, as palavras, a vida, tudo parece fazer sentido. Por segundos, eternos, compreenda-se, imobilizo palavras como harmonia. Solta-se o desejo, o beijo, o sangue. Mergulhas os teus naufrágios nas minhas cores enquanto colo a tua pele nos meus olhos. Perdemo-nos na noite.

Mais tarde, muito mais tarde, a música termina, apagam-se as luzes, a neve toma o lugar do coração e deixamos de flutuar.
A vida recomeça devagar. É mais um dia igual a tantos outros.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anne McAulay»
escrito ao som de Spiritualized - Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

«Viajar na Mesma Canção»


Ainda moro num saco cheio de sonhos. Por entre as horas perdi-me naquela estação. A mesma estação onde adormecia enquanto esperava a tua chegada. Perdi-me nas canções, na solidão dos dias comuns. Mas continuo a querer pegar-te pela mão. Como hei-de adivinhar o caminho? Penso em ti e esqueço-me do tempo, esqueço-me da chuva que me lava o coração. E se esquecermos a idade? Se esquecermos as rugas e dormirmos de novo no carro. Se voltarmos a viajar na mesma canção. Tu persistes nesse sorriso e a oferecer o olhar céu. Esse olhar em que eu mergulhava de cada vez que escutava a canção. E como voltaria a fazer tudo de novo. Gostaria de te contagiar agora, varrer todas as memórias e nascer de novo. Colher-te na mesma estação. Gemer o amor, morrer por ti minuto a minuto. Chover nos teus canteiros. Tornar-me flor. Ficar no teu peito. Sorrir. Beijar a neblina da manhã. Ir buscar-te ao comboio e levar-te a casa. Beijar-te. Sentir o teu sabor. Guardar o teu sabor, para sempre.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anna Pagnacco»
escrito ao som de The National - Daughters of the Soho Riots

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

«O Teu Coração»

A imaginação, o tacto, o movimento,
Tudo se atrofia perante a tua ausência.

Choro o tempo que rasguei
Entre viagens sem propósito
E palavras sem tradução.

O longe que desejei é hoje
O martírio que temo ter de atravessar;
É o deserto nas minhas veias,
A poeira ácida que me corrói e angustia.

O meu único destino é o teu coração.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Denis Waugh»

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

«Sabes»

Sei as canções
Que em segredo agasalhei
Todos estes anos;
E sei a multidão
Que no meu intimo grita o teu nome.

Sei o desejo.
Sei a dor e o cheiro da pele.
Sei o sorriso.
E sei todos os minutos
Percorridos nos recantos do teu corpo.

Nunca te disse o quanto namoro o teu nome.

Sei o prazer
Que a tua sombra dá à minha pele;
E sei o toque da tua
Quando o teu corpo se lava no meu.

Sei esse olhar que aceita o mundo.
Hoje, sabes um pouco mais
Deste amor que guardei
Por entre silêncios e despropósitos.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Elina Moriya»

Sábado, Setembro 26, 2009

«Danço»

Retiro todo o nevoeiro que cobre a velha aparelhagem e recupero memórias em 33 rotações. Como são belos os discos em vinil. Constato que muitos deles nunca os cheguei a adquirir em cd. Ainda bem.

"Danço"...as minhas memórias dançam vagueando por entre os recantos do coração. As canções sempre me definiram vastos horizontes. Não existem fronteiras para quem "dança".

Sento-me e ouço a batida do coração ao ritmo da canção. O vinil é o mesmo, a canção é a mesma e o ritmo do coração é o mesmo. Os limites, ou a sua ausência, não se modificaram com o passar dos anos.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Lilya Corneli»

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

«Pensarei»

(...)
Queria ser o teu pátio e a tua lua.
Queria preparar, numa pira de poções,
mandrágoras, elixires, encantamentos, feitiços,
esconjurações, as longas sendas do extravio e da ternura,
queria abrir atalhos, veredas, coordenadas de maio a maio,
afluentes, regatos, estradas que jamais conduzirão ao mar, eu sei.

E, embora sabendo, não vacilarei,
serei como a inquebrável fibra dos vimes,
pensarei sempre em ti...

in «O Pai, A Mãe e o Silêncio dos Irmãos» de «José Agostinho Baptista»
foto de «LJAD Creyghton»

Terça-feira, Setembro 22, 2009

«Silêncio»

esperas
e sabes que só isso
te é dado

ofereces os braços
e os olhos e a voz única
do sangue e da morte

esperas
e sabes que nada
te é dado

nada
só o estar aqui
e a consciência ténue
do silêncio que serás

in «agora, que a noite» de «luís maia varela»
foto de «Gozo Mansour»

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

«Quem Faz Tremer os Solos»

quem é que sobe do deserto com a sua alumiação,
com abundância,
desequilíbrio,
e mete dentro de mim a água tirada às minas,
e me faz nascer numa língua que não é contemporânea,
que é arcaica, anacrónica,
epiphânica,
e com essa água crua me ilumina a testa,
pálpebras
espáduas,
o sulco entre as nádegas, as vergonhas tão altas,
tão sombrias,
e me sussurra, entre colmeias, no ar:
sou obscuro, adivinha-me,
e rasga com as duas mãos as madeiras que o cercam,
ou abre as labaredas para que a escuridão se veja,
quem me pergunta por si próprio,
se sei dele,
ou outro assunto excelso, rebarbativo,
peremptório,
ou me arrebata de entre os dedos o pão canino,
ou o nó de ar boca que eu aprontava para o acto
arrevasado, arrítmico,
do meu texto
quem faz tremer os solos e soalhos e me procura,
e não toca em nada do meu corpo,
nem nas têmporas, nem na veia jugular, nem na ponta de um cabelo,
e a mão apenas se move entre lápis e caderno,
e em chegando ao caderno compõe um abuso de luz,
oh que radiação no corpo e nas suas partes pobres,
que pobres são todas as partes
do corpo, do amor, do louvor, do idioma,
quem sobe ou desce ou irrompe,
quem sem magnificência nenhuma
aparece,
e indaga das práticas autárquicas de água e fogo,
rosto a rosto,
esse mesmo é quem me encontra e quem me sobra na boca
o vulgo, o pouco, o inesperado
.
in «A Faca não Corta o Fogo» de «herberto helder»
foto de «LJAD Creyghton»

Terça-feira, Setembro 15, 2009

«O Teu Olhar»

Queria palavras novas,
inventar uma outra linguagem
para te perceber e celebrar.

Acreditava
que o segredo estava nas palavras,
e experimentei o corpo e o silêncio.

Mas permanecias inacessível,
confundindo-me a euforia dos gestos
e o bulício da presença.

Um dia percebi
que o teu olhar esvaziava
as palavras
e dediquei-me ao horizonte.

À febre.

in «longe do mundo» de «Jorge Fallorca»
foto de «Andy Tommo»

Sábado, Setembro 12, 2009

«No Fogo dos Meus Olhos»

(...) Amanhã, ou enquanto dormes
- agora mesmo -, vou pensar em ti.
Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele,
e o movimento dos dias passe como aves
que perdem o sentido do voo - até que tudo
o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules - quando estendo a mão
por dentro da noite e te acordo,
no fogo dos meus olhos.

in «Dispersos» de «Al Berto»
foto de «LJAD Creyghton»