Domingo, Fevereiro 07, 2010

«Chama»

Partem os meus olhos na tua ausência. Uma lágrima semeia o sonho no coração e  existe uma chama que permanece trancada no meu segredo. Sofro-a como uma igreja desprezada em horas de abandono. Ouço-a gritar num ardor tão real. Encontrei as estrelas mas sei que o Inverno não irá terminar esta noite. 

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco» 
foto de «Milette Raats»

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

«Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe»

Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem 
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.

in «Poesia» de «Daniel Faria»
foto de «Rolph Gobits»

Sábado, Janeiro 30, 2010

«Comboios»

Uma vigília inicia-se no sossego dos rostos. Descosem-se janelas por onde ecoam ventos escarlates que abotoam corações ao sol. Já são muitos os que desejam mapas que gesticulem caminhos sem destino. Azulam quedos. Timidamente. Cantam em silêncio. E permutam uma pitada de sal, duas canções, olhares e abraços de lã. Aprisionam viagens por entre a pele e o Vesúvio. São jornadas onde o ritmo cardíaco inventa comboios. Em cada estação, sorriem pedaços de nós que se agigantam. E sorriem os vínculos, sorriem os dedos e as costas por onde navegam as tuas mãos. E sorri a tristeza que altera definitivamente o seu nome.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Patrick Gonzalez»

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

«O Fogo e o Sangue»

Nos caminhos que percorres retarda-se a minha sombra. O desejo perde-se no sonho, nas canções ensonadas, nos membros de que me ausento.

O pensamento deambula, como um pássaro adolescente e descuidado, por não ter desenhado nas mãos, os Invernos, as estrelas, os dias em que o teu corpo navega.

Resides muito além do meu horizonte. Não sinto o vento nem os lugares que alcanças, nada me chega, nada me é dito. Um espaçoso complexo de muralhas guarda-te do meu olhar. Os dias prolongam-se pelas noites que naufragam nos meus olhos e não existem palavras, sons, canaviais que consiga decifrar.

Sobrevivem promessas adolescentes que me inebriam. Convivem com o medo e o entardecer da solidão nos meus rituais. Atalham a amargura que aflui desses caminhos sem destino. Aquela que mais dói, a que não anseio perfilhar.

Emoções sentam-se na expectativa de que o tempo se deixe habitar. Para afugentar essas barcaças entristecidas, afago os meus mistérios, esboço promessas que ninguém lê. E corto a mágoa, corto os dedos, corto os pulsos, numa sensorial queda livre, despenhando-me na melancolia que me desbarata o rosto.

É uma batalha que a alma consente. São passados. Estilhaços rasgando a carne. Precipícios que se alojam, quentes como o sangue que percorre o corpo e é presença antiga.

Noite após noite, as horas sobrepõem-se e tudo o que nunca dissemos amontoa-se numa serrania de algodão em que nos encharcamos. Nós e os nossos silêncios. Os nossos rostos solitários, nas nossas cidades plenas de encontros imprevisíveis.

Afogamo-nos na multidão que nos atropela, afogamo-nos em agitações dispersas. E se observares o teu rosto, belo como um coração em desordem, verás que ele grita, que ele te pede socorro na desolação dos seus próprios sonhos.

Por isso, peço-te, antes que este corpo descarnado anoiteça, façamos das nossas veias, pontes e, do outro lado da dor, partilhemos o fogo e o sangue. Acreditemos na existência da lua e na chama que nascerá da união, para assim transportar o meu dialecto por entre os plátanos que teimo em desfocar.

Escreve a palavra calor nos meus olhos, para que o meu rosto aqueça a noite. Aconchega os meus silêncios no teu regaço, bordando no teu corpo um casulo e acolhe o meu coração.

Vem e roubemos minutos ao futuro, para que seja absolvido da desventura. Permite que as emoções tremulem através do único vocábulo que a envelhecida voz que ouço, cicia: o Amor. Pois só ele faz desafiar o poente.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Clare Park»

Domingo, Janeiro 24, 2010

«Cartas de Outono»

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me. Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível pelas estradas de giestas em direcção ao mar. Dorme e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfaltos.


Para trás ficou a cidade. E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem querer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.


Amanhã ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.


No fim do sono existe um vulcão.
De repente a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com os seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas estão em mim – e não nas coisas.


Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo. E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:


- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada. Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama. Ponho os óculos e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.
Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada a ideia que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez. Por isso bebo.
Beber ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de nos perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
- Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi. - Não me abandones, fica… E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos A Dança de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.


Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.

- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, dos dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento da tua ausência.


A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos a morrer, vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar. Passamos a vida numa espécie de silencio, numa mudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.

Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.


Tenho um amigo que disse:

- Sabes, a verdade nunca acaba.

Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?


Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.


Um dia, disseste:

- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.

Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia dúzia de palavras.


Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de amêndoa que te diga:

- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:

- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.


Repara, através dos meus olhos descobrirás como é a grande tristeza do mundo. Apenas isso. E, quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.


Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…


Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão. Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.

Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos no escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.

As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensanguentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros. O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema. Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.


Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.


in «Dispersos» de «Al Berto»
foto de «Bruno Taddei»

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

«Mergulho»

Por entre as veias fugiu-me o sol.
Procurei cobertores, horizontes,
Procurei por ti.


Residias noutro firmamento.
A ternura conduzia-te ao futuro e

Guardavas no olhar as artérias da paz.


Eu consumia canções como lenha
Para um coração que se quer lareira.

Esboçava palavras, silêncios como sangue.


Tu escrevias carinho, rostos, confiança.
Uma lágrima de luz, timidamente,

Oferecia-te bússolas.


E assim atravessávamos as horas
Flutuando destinos como pontes.

Um dia, por nexo ou casualidade,
Os nossos pulmões permutaram sorrisos

Num mergulho que sustentou o tempo.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Martin Brent»

Domingo, Janeiro 17, 2010

«Homem Perto do Chão»

Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária

o homem enche de ar o peito vespertino

arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno

e chega a ter desejos de ficar


Mas em que rosto isento de contradição

há-de ele peregrino erguer a tenda?

Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse

esse deus invisível


Florescem quando passa contraditórios clarins

cantando cada um sua ideia diversa

nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem

a pesada cabeça entre as mão caída

Ele que desça ao fundo de todos os olhos

que nos trazem a alma à flor da pele

também não serão lá o coração ou a infância

Quando a tarde morrer ou o outono vier

do seu olhar é que as aves todas partirão

Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão


in «Aquele Grande Rio Eufrates» de »Ruy Belo»

foto de «Richard Poulton»

Sábado, Janeiro 09, 2010

«Silêncio»

O céu e o mar fundem-se na cor do teu segredo enquanto amanheço o teu rosto pelos beirais. O vento traz-me o eco da tua pronúncia, comanda os meus passos numa espiral de solidão. Sinto o desejo de roubar-te às horas e bordar a ternura com o teu sorriso. A chuva suave ampara-me na ausência e o meu corpo expande-se como um eterno dia de verão, como se as vozes das cigarras me indicassem o cais de um país de sonho. As minhas mãos recordam o teu calor, como o meu olhar recorda a vastidão das searas e sofro a queimadura do silêncio, como se brincasse com o fogo. Em dias povoados como este todo o meu corpo deseja pertencer-te, mas a janela onde me debruço só me consente o olhar. E assim, permanecendo entre o destino e a coragem, sofro a liberdade do meu pensamento.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Kelvin Hudson»

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

«O Pintor»

Sentia o fogo solitário sorrir na ponta dos dedos, sabendo que ela respirava o vento, o riso e o esquecimento. O peito ardia lentamente, os pássaros beijavam as rugas do coração e o seu corpo rasgava-se num arrepio ao imaginar o segredo dançando por entre a multidão, a ternura vagueando na imensidão da cidade. Tão perto do seu pensamento, tão longe da sua vida.

Em movimentos lentos, as suas mãos desenhavam murmúrios indefinidos, imperceptíveis ao mundo exterior, e no seu íntimo sussurrava, vem beijar-me os olhos com a força desse vento, com a força das lágrimas que te correm nas veias, vem permitir que as imagens nos envolvam, a nós seres alados, a nós meros aromas que se perdem e se entrelaçam na cidade anónima.

No início ele era o frio, o silêncio, e agora ansiava o ópio que os faria dançar por entre a espessa neblina que seduz corações. Escutariam os violinos que se apoderam das almas ingénuas e o piano que acaricia sofregamente a pele dos corpos extasiados.

Ele era no cansaço das horas, enquanto o dia e a noite comungam ilusões à luz da vela, um pintor de desertos, e em cada acorde vivia o seu sonho. E todas as cores do mundo, não seriam suficientes para desenhar a fantasia contida em cada um dos seus dedos.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Doug Currie»

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

«Amanhã»

Amanhã o dia terá somente 24 horas. Estas palavras são para todos os que as desejem agasalhar. Não se aconcheguem numa qualquer colecção de refúgios, nem se consumam em gestos sem tradução. Com toda a certeza algo de bom acontecerá.

Não conheço as fronteiras nem o longe que terão de superar, não sei quais os limites que terão de chorar, mas algo de bom acontecerá. Não estacionem na tristeza mais do que uma vida, pois têm tantas outras para viver. Não se deixem vencer pelo cansaço.

Abracem as montanhas e as esplanadas a que se convencionou chamar de destino, por muito que ele pese, pois a vida será sempre um mistério. E é esse mistério que não se pode desprezar. Pois não interessa quando nem porquê, algo de bom acontecerá. E o dia amanhã terá umas longas 24 horas.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de
«Rolph Gobits»

Terça-feira, Dezembro 29, 2009

«Restauro»

Na ânsia de viver navios, errei o tempo. De tanto contar horizontes, por entre melancolias e canções, adormeci perdido na beleza dos teus dedos. Já faz tanto tempo sobre o tempo que passou e ainda não consegui abandonar a louca tentativa de compreender o crepúsculo.

Mas, continuo a saber contar esses dedos que insistem em indicar-me o destino, mesmo sabendo que emudeço e troco o futuro com o passado. Eu, prisioneiro dos meus Outonos, sofro os lábios que em silêncio desejam sorrir palavras.

E, digo-te agora nestes vocábulos por lavrar, necessito de colocar uns andaimes neste coração amarrotado, pois sinto que está cansado de mim. Provavelmente colocar-lhe-ei uma sinalização, algo como – tratar com cuidado existe por aqui um coração em obras –. O corpo e a alma irão agradecer o restauro.


in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»

foto de «
George Kavanagh »

Domingo, Dezembro 27, 2009

»Marés»

O coração levita sobre as rugas de um rio. As mãos fragmentam a realidade enquanto Sylvian e Sakamoto tocam a perfeição com as suas Cores Proibidas. Os dedos abraçam o vento gelado e a minha voz permanece junto à maré-cheia, por entre conchas e gaivotas de quem nada se sabe, nem mesmo um simples nome.

A tua voz invade o meu silêncio lunar. Trocamos palavras que proferimos em sossegos prolongados, palavras segredo. Memorizei cada passo, cada sílaba, cada gota de água, conheço toda essa poesia que te envolve o olhar. As memórias envolvem-me por entre os lábios, colando-se ao rosto como algodão doce e, por momentos, a alegria faz-se sentir em todo o corpo.

Na verdade, não me assusta a solidão. As marés invadem-me durante a sua troca de lugares e eu choro sempre que o coração se encontra de costas. Torna-se mais fácil o perdão quando enxugo as lágrimas. E quando as rugas se acentuam eu menosprezo o momento, porque será o ultimo. Até à próxima maré vazia.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Francisco»

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

«Um Homem Simples»

Procuro-me nas margens do teu corpo onde, tatuado pelo desejo, desfolho as mais belas páginas, traduzo as mais harmoniosas palavras. A minha alma projecta-se por entre palavras que os meus olhos, sofregamente, bebem. Palavras que saciam a carne, que percorrem a tua intimidade e desenham as mais belas madrugadas.

Mas, sabes, ainda existem locais estranhos nesta minha casa. Locais em que as palavras se soltam em solidão, quando a fome que o meu peito sente se debulha nos mais perfeitos atalhos rumo aos teus braços. Esses braços que me envolvem tornando-me coração.

Um coração que balouça embalado nas extremidades dos teus membros mais compridos. E assim, com um sorriso enrugado que mergulha o olhar na ria e desvenda aos peixes o sofrimento de um homem simples, demonstro-te a minha alegria. A alegria de um homem simples no momento em que se torna coração.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Jaap Vliegenthart»

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

«Abriga-me»

Amanheci com uma dor envelhecida. Sinto que estou a ficar gasto e cansa-me esta inconstância. Posso abrigar-me junto ao teu coração? Chega de absorver tantas vidas com palavras. Os homens não costumam gastar vidas com palavras.

Desejava conhecer-te agora, de novo, no final de uma tarde fria, quando nos cruzássemos embrulhados em roupas e sorrisos. Somente o olhar residiria desfolhado. Voltaríamos à alvura, puros, os dois, inocentes. Para sulcarmos, uma outra vez, os nossos oceanos.

Posso abrigar-me junto ao teu coração? Eu admiro a tua quietude e, sabes, permite-me o segredo, estou prestes a estilhaçar-me. Peço-te, afaga os meus mistérios, abarca a minha complexidade. Abriga-me.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Bob Miller»

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

«A Noite»

Acordo no frio das minhas palavras. Do que me recordo, somente desejei perceber este emaranhado de emoções e a complexidade do meu pensamento. Falhei. Permaneço um estranho perante a minha própria pele. Pensei que as canções seriam a mais bela viagem, mas existem ainda múltiplos caminhos por percorrer e já temos uma bagagem cheia de memórias para transportar.

Eu sei que nos magoámos mas sempre que fecho os olhos vejo-te sonhar por entre os poros da minha pele. Quando estou só desenho o teu rosto em todos os lugares. Na minha pele, nas nuvens preenchidas a lápis nas costas dos estranhos que me atropelam, nos cheiros dos mercados pela manhã.

Necessito de ti no final da minha sombra. Preciso que os teus passos persigam os meus, que os teus beijos invadam as minhas pálpebras, até que eu, cego, somente te possa tocar. E, novamente, irei transpor a fantasia e presenciar bailarinas que rodopiam por entre os violinos que teimo em escutar.

Vem, o Rufus está prestes a maravilhar a audiência e nós estaremos lá. Na primeira fila. Paris será de novo nossa. E seremos a noite junto ao Sena.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anne McAulay»

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

«Coisas Simples»

Junto à árvore onde os meus braços cresceram existe agora o passado. Não consigo permanecer lá mais de um ou dois pensamentos. Tudo se torna mais difícil quando vamos ganhando raízes. E por mais etapas que ultrapassemos, cada dia que nasce, nós nascemos com ele e a nossa alma não envelhece com a idade.

As nossas paixões, os nossos receios, as dúvidas, existem sempre. Apenas nos acomodamos. Escondemo-nos de nós próprios. E um dia olhamo-nos e não nos reconhecemos. E nesse dia resolvemos parar e permanecer por mais do que um ou dois pensamentos junto à árvore onde nos cresceram os braços e é nesse momento que choramos. Choramos pelas nossas aldeias, que se debilitam por entre sorrisos e lágrimas, e por todas as almofadas que fomos colocando junto ao coração.

E nesse momento corremos em todas as direcções e embriagamos de cansaço a memória e voltamos a correr e embriagamos a razão e paramos. E percebemos que é tão tarde. E temos de recomeçar. Mais uma vez. E não dizemos nada. Tornamo-nos fortes, colocamos um ar altivo e continuamos. Coisas simples.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Elina Moriya»

Sábado, Dezembro 05, 2009

«Ilusões»

Sinto, ao interditarem todos os eléctricos, que iludem a tristeza. Observo olhares de pedra e dedos de púrpura que fabulam o presente para esquecer o futuro. É um transe colectivo que disfarça a mágoa e vai preservando a nossa sociedade.

Mas, festejemos então. Estão aí, de novo, os dias de alegria. E, seremos todos. Seremos família. Por uns dias, todos falaremos muito e sorriremos. Tudo fará sentido. Existirão, de novo, árvores em todos os jardins municipais, e as cidades serão de novo aldeias. E as aldeias serão de novo povo. E o povo será de novo festa.

Sinto, ao embargarem todos os navios, que iludem a tristeza. Observo as luzes e as cores que se multiplicam enquanto a melancolia sussurra junto às nossas povoações. E quando se desmontar a tenda, após o festejo terminar, seremos de novo todas as indecisões e a dor que se afoga no estômago, nesta vida que é nossa.

Sinto, ao obstruírem todas as caravanas, que iludem a tristeza. Mas, poderíamos soltar, por fim, todos os sonhos guardados, há já tanto suor, em todas as gavetas coloridas. Arquitectando-se, assim, uma época onde não existissem intempéries, feita de braços e pernas, de emoções e pele. Onde a solidão fosse morada desabitada.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Millette Raats»

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

«O Homem Que Se Rodeava de Mar»

Existiu um tempo no qual conheci um homem que se rodeava de mar. Tinha histórias no olhar e as suas mãos dançavam enquanto descrevia, através de inúmeros silêncios, a tristeza e a vida que o tinha desamparado. Nesses dias eu era novato, tão novo, que, a mim, a vida ainda não se tinha declarado. Aquele homem resistia, digno no seu porte, brioso, porem solitário, como uma árvore esgotando-se no deserto.

As suas horas eram feitas de ausência e acumulava-se, nele, a angústia de jamais ter recebido uma justificação. Um dia, conheci um homem digno, que se alimentava do melhor azul do mar. Tinha a solidão espelhada nos sulcos da face e era rico nas palavras. Era abundante na educação e na forma como cativava quem o ouvia.

Poucos o acolhiam. O tempo não oferece tempo para escutar as histórias dos outros. Quem tem minutos para dedicar em troca de nada? O homem que oferecia dignidade, tinha rugas na voz, mas as suas palavras sorriam quando o escutávamos.

Eram belas as suas histórias de uma vida passada no mar. Existiu em tempos um homem que se rodeava de mar. Hoje recordo o seu olhar. Os seus silêncios. A sua bondade.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Alex Bamford»

Sábado, Novembro 28, 2009

«O Labirinto»

E de novo se faz manhã. Esvoaçam tristezas por entre sorrisos de papel. Correm corações. Atrasados. Correm inutilmente em busca do passado. Somos muitos, todos juntos formamos a solidão. E todos ouvimos canções. Hipnotizamo-nos pelos ouvidos. As novas sociedades, de movimentos fragmentados, adormecem as suas almas, ao som de modas que ensurdecem os tímpanos.

Observo olhares estilhaçados que, momentaneamente, se refugiam noutros tão cansados quanto eles. Será que Deus ouve as nossas preces? Cada pessoa uma ilha, rodeada de um nevoeiro espesso que a cerca. Por vezes um movimento brusco quebra o enfado, é o fogo e o gelo num segundo, num sorriso fugaz. Uma alegria que perturba a correria, por entre os minutos empoleirados, encavalitados, de mais uma jornada. São estes os dias da solidão anunciada. Os violinos amortecem a queda, suavizam o choque com a dura realidade.

E de novo se faz noite. Os corpos recolhem às habitações por entre ventos adversos. Ouvem-se rumores de golpes profundos que se prolongam, arrastados. Alguém comenta, é lá longe, por sorte cá dentro está tudo bem. E assim, sentindo-se o piano lacrimejar nos poros da pele que se arrepia, as certezas tremulam. Deitam-se as crianças e acalmam-se as emoções que ainda restam nas artérias, para os restantes dias de felicidade. Para o derradeiro labirinto.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «André Lichtenberg»

Sábado, Novembro 21, 2009

«A Única Verdade»

Que poderei eu dizer? Eu sentia-me tão longe. Agitava-me por aí, disperso no interior do meu naufrágio. Vagueava tão perto do teu rosto, da tua respiração. Tão perto de te perder. Eu decompunha-me arredado das emoções. Os teus pés excediam as fronteiras, tocavam-me a alma, mas o meu pensamento, simplesmente, envelhecia. Ausente. Que mais poderei eu dizer? Sei que anoitecia e que nesses momentos te desbaratava, sempre que não pronunciava a verdade.

Agora, como poderei segredar-te tudo o que as minhas mãos reflectem? Recordo-me que amordacei as palavras como se de ignorância se tratasse. Hoje, depois da imensidão do deserto adormecer no meu destino, posso dizer-te o que, finalmente, reconheço. Amo-te.

Sim, foi sempre amor o que não fui capaz de navegar. E tanto que me doeu esconder de todos os braços, pernas, dos nossos corações, da nossa vida. Esconder de mim. O que ainda poderei dizer? Sei que não te poderei perder. Nem esta noite, nem nas marés que reflectem os múltiplos que convivem nas minhas entranhas, nem nas estrelas que reproduzem o teu olhar.

Quero-te sempre acordada para te falar de tudo o que deixei de dizer. Todos estes anos. Todos os livros e todas as canções. Todas as cidades. Quero-te perguntar se me perdoas, os minutos, as horas, a vida que demorei a aceitar esta minha, única, verdade. Amo-te.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Andreas Heumann»