Sentia o fogo solitário sorrir na ponta dos dedos, sabendo que ela respirava o vento, o riso e o esquecimento. O peito ardia lentamente, os pássaros beijavam as rugas do coração e o seu corpo rasgava-se num arrepio ao imaginar o segredo dançando por entre a multidão, a ternura vagueando na imensidão da cidade. Tão perto do seu pensamento, tão longe da sua vida.Em movimentos lentos, as suas mãos desenhavam murmúrios indefinidos, imperceptíveis ao mundo exterior, e no seu íntimo sussurrava, vem beijar-me os olhos com a força desse vento, com a força das lágrimas que te correm nas veias, vem permitir que as imagens nos envolvam, a nós seres alados, a nós meros aromas que se perdem e se entrelaçam na cidade anónima.
No início ele era o frio, o silêncio, e agora ansiava o ópio que os faria dançar por entre a espessa neblina que seduz corações. Escutariam os violinos que se apoderam das almas ingénuas e o piano que acaricia sofregamente a pele dos corpos extasiados.
Ele era no cansaço das horas, enquanto o dia e a noite comungam ilusões à luz da vela, um pintor de desertos, e em cada acorde vivia o seu sonho. E todas as cores do mundo, não seriam suficientes para desenhar a fantasia contida em cada um dos seus dedos.
in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Doug Currie»



















