Terça-feira, Janeiro 05, 2010

«O Pintor»

Sentia o fogo solitário sorrir na ponta dos dedos, sabendo que ela respirava o vento, o riso e o esquecimento. O peito ardia lentamente, os pássaros beijavam as rugas do coração e o seu corpo rasgava-se num arrepio ao imaginar o segredo dançando por entre a multidão, a ternura vagueando na imensidão da cidade. Tão perto do seu pensamento, tão longe da sua vida.

Em movimentos lentos, as suas mãos desenhavam murmúrios indefinidos, imperceptíveis ao mundo exterior, e no seu íntimo sussurrava, vem beijar-me os olhos com a força desse vento, com a força das lágrimas que te correm nas veias, vem permitir que as imagens nos envolvam, a nós seres alados, a nós meros aromas que se perdem e se entrelaçam na cidade anónima.

No início ele era o frio, o silêncio, e agora ansiava o ópio que os faria dançar por entre a espessa neblina que seduz corações. Escutariam os violinos que se apoderam das almas ingénuas e o piano que acaricia sofregamente a pele dos corpos extasiados.

Ele era no cansaço das horas, enquanto o dia e a noite comungam ilusões à luz da vela, um pintor de desertos, e em cada acorde vivia o seu sonho. E todas as cores do mundo, não seriam suficientes para desenhar a fantasia contida em cada um dos seus dedos.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Doug Currie»

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

«Amanhã»

Amanhã o dia terá somente 24 horas. Estas palavras são para todos os que as desejem agasalhar. Não se aconcheguem numa qualquer colecção de refúgios, nem se consumam em gestos sem tradução. Com toda a certeza algo de bom acontecerá.

Não conheço as fronteiras nem o longe que terão de superar, não sei quais os limites que terão de chorar, mas algo de bom acontecerá. Não estacionem na tristeza mais do que uma vida, pois têm tantas outras para viver. Não se deixem vencer pelo cansaço.

Abracem as montanhas e as esplanadas a que se convencionou chamar de destino, por muito que ele pese, pois a vida será sempre um mistério. E é esse mistério que não se pode desprezar. Pois não interessa quando nem porquê, algo de bom acontecerá. E o dia amanhã terá umas longas 24 horas.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de
«Rolph Gobits»

Terça-feira, Dezembro 29, 2009

«Restauro»

Na ânsia de viver navios, errei o tempo. De tanto contar horizontes, por entre melancolias e canções, adormeci perdido na beleza dos teus dedos. Já faz tanto tempo sobre o tempo que passou e ainda não consegui abandonar a louca tentativa de compreender o crepúsculo.

Mas, continuo a saber contar esses dedos que insistem em indicar-me o destino, mesmo sabendo que emudeço e troco o futuro com o passado. Eu, prisioneiro dos meus Outonos, sofro os lábios que em silêncio desejam sorrir palavras.

E, digo-te agora nestes vocábulos por lavrar, necessito de colocar uns andaimes neste coração amarrotado, pois sinto que está cansado de mim. Provavelmente colocar-lhe-ei uma sinalização, algo como – tratar com cuidado existe por aqui um coração em obras –. O corpo e a alma irão agradecer o restauro.


in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»

foto de «
George Kavanagh »

Domingo, Dezembro 27, 2009

»Marés»

O coração levita sobre as rugas de um rio. As mãos fragmentam a realidade enquanto Sylvian e Sakamoto tocam a perfeição com as suas Cores Proibidas. Os dedos abraçam o vento gelado e a minha voz permanece junto à maré-cheia, por entre conchas e gaivotas de quem nada se sabe, nem mesmo um simples nome.

A tua voz invade o meu silêncio lunar. Trocamos palavras que proferimos em sossegos prolongados, palavras segredo. Memorizei cada passo, cada sílaba, cada gota de água, conheço toda essa poesia que te envolve o olhar. As memórias envolvem-me por entre os lábios, colando-se ao rosto como algodão doce e, por momentos, a alegria faz-se sentir em todo o corpo.

Na verdade, não me assusta a solidão. As marés invadem-me durante a sua troca de lugares e eu choro sempre que o coração se encontra de costas. Torna-se mais fácil o perdão quando enxugo as lágrimas. E quando as rugas se acentuam eu menosprezo o momento, porque será o ultimo. Até à próxima maré vazia.

in «Penitências de Um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Francisco»

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

«Um Homem Simples»

Procuro-me nas margens do teu corpo onde, tatuado pelo desejo, desfolho as mais belas páginas, traduzo as mais harmoniosas palavras. A minha alma projecta-se por entre palavras que os meus olhos, sofregamente, bebem. Palavras que saciam a carne, que percorrem a tua intimidade e desenham as mais belas madrugadas.

Mas, sabes, ainda existem locais estranhos nesta minha casa. Locais em que as palavras se soltam em solidão, quando a fome que o meu peito sente se debulha nos mais perfeitos atalhos rumo aos teus braços. Esses braços que me envolvem tornando-me coração.

Um coração que balouça embalado nas extremidades dos teus membros mais compridos. E assim, com um sorriso enrugado que mergulha o olhar na ria e desvenda aos peixes o sofrimento de um homem simples, demonstro-te a minha alegria. A alegria de um homem simples no momento em que se torna coração.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Jaap Vliegenthart»

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

«Abriga-me»

Amanheci com uma dor envelhecida. Sinto que estou a ficar gasto e cansa-me esta inconstância. Posso abrigar-me junto ao teu coração? Chega de absorver tantas vidas com palavras. Os homens não costumam gastar vidas com palavras.

Desejava conhecer-te agora, de novo, no final de uma tarde fria, quando nos cruzássemos embrulhados em roupas e sorrisos. Somente o olhar residiria desfolhado. Voltaríamos à alvura, puros, os dois, inocentes. Para sulcarmos, uma outra vez, os nossos oceanos.

Posso abrigar-me junto ao teu coração? Eu admiro a tua quietude e, sabes, permite-me o segredo, estou prestes a estilhaçar-me. Peço-te, afaga os meus mistérios, abarca a minha complexidade. Abriga-me.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Bob Miller»

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

«A Noite»

Acordo no frio das minhas palavras. Do que me recordo, somente desejei perceber este emaranhado de emoções e a complexidade do meu pensamento. Falhei. Permaneço um estranho perante a minha própria pele. Pensei que as canções seriam a mais bela viagem, mas existem ainda múltiplos caminhos por percorrer e já temos uma bagagem cheia de memórias para transportar.

Eu sei que nos magoámos mas sempre que fecho os olhos vejo-te sonhar por entre os poros da minha pele. Quando estou só desenho o teu rosto em todos os lugares. Na minha pele, nas nuvens preenchidas a lápis nas costas dos estranhos que me atropelam, nos cheiros dos mercados pela manhã.

Necessito de ti no final da minha sombra. Preciso que os teus passos persigam os meus, que os teus beijos invadam as minhas pálpebras, até que eu, cego, somente te possa tocar. E, novamente, irei transpor a fantasia e presenciar bailarinas que rodopiam por entre os violinos que teimo em escutar.

Vem, o Rufus está prestes a maravilhar a audiência e nós estaremos lá. Na primeira fila. Paris será de novo nossa. E seremos a noite junto ao Sena.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anne McAulay»

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

«Coisas Simples»

Junto à árvore onde os meus braços cresceram existe agora o passado. Não consigo permanecer lá mais de um ou dois pensamentos. Tudo se torna mais difícil quando vamos ganhando raízes. E por mais etapas que ultrapassemos, cada dia que nasce, nós nascemos com ele e a nossa alma não envelhece com a idade.

As nossas paixões, os nossos receios, as dúvidas, existem sempre. Apenas nos acomodamos. Escondemo-nos de nós próprios. E um dia olhamo-nos e não nos reconhecemos. E nesse dia resolvemos parar e permanecer por mais do que um ou dois pensamentos junto à árvore onde nos cresceram os braços e é nesse momento que choramos. Choramos pelas nossas aldeias, que se debilitam por entre sorrisos e lágrimas, e por todas as almofadas que fomos colocando junto ao coração.

E nesse momento corremos em todas as direcções e embriagamos de cansaço a memória e voltamos a correr e embriagamos a razão e paramos. E percebemos que é tão tarde. E temos de recomeçar. Mais uma vez. E não dizemos nada. Tornamo-nos fortes, colocamos um ar altivo e continuamos. Coisas simples.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Elina Moriya»

Sábado, Dezembro 05, 2009

«Ilusões»

Sinto, ao interditarem todos os eléctricos, que iludem a tristeza. Observo olhares de pedra e dedos de púrpura que fabulam o presente para esquecer o futuro. É um transe colectivo que disfarça a mágoa e vai preservando a nossa sociedade.

Mas, festejemos então. Estão aí, de novo, os dias de alegria. E, seremos todos. Seremos família. Por uns dias, todos falaremos muito e sorriremos. Tudo fará sentido. Existirão, de novo, árvores em todos os jardins municipais, e as cidades serão de novo aldeias. E as aldeias serão de novo povo. E o povo será de novo festa.

Sinto, ao embargarem todos os navios, que iludem a tristeza. Observo as luzes e as cores que se multiplicam enquanto a melancolia sussurra junto às nossas povoações. E quando se desmontar a tenda, após o festejo terminar, seremos de novo todas as indecisões e a dor que se afoga no estômago, nesta vida que é nossa.

Sinto, ao obstruírem todas as caravanas, que iludem a tristeza. Mas, poderíamos soltar, por fim, todos os sonhos guardados, há já tanto suor, em todas as gavetas coloridas. Arquitectando-se, assim, uma época onde não existissem intempéries, feita de braços e pernas, de emoções e pele. Onde a solidão fosse morada desabitada.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Millette Raats»

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

«O Homem Que Se Rodeava de Mar»

Existiu um tempo no qual conheci um homem que se rodeava de mar. Tinha histórias no olhar e as suas mãos dançavam enquanto descrevia, através de inúmeros silêncios, a tristeza e a vida que o tinha desamparado. Nesses dias eu era novato, tão novo, que, a mim, a vida ainda não se tinha declarado. Aquele homem resistia, digno no seu porte, brioso, porem solitário, como uma árvore esgotando-se no deserto.

As suas horas eram feitas de ausência e acumulava-se, nele, a angústia de jamais ter recebido uma justificação. Um dia, conheci um homem digno, que se alimentava do melhor azul do mar. Tinha a solidão espelhada nos sulcos da face e era rico nas palavras. Era abundante na educação e na forma como cativava quem o ouvia.

Poucos o acolhiam. O tempo não oferece tempo para escutar as histórias dos outros. Quem tem minutos para dedicar em troca de nada? O homem que oferecia dignidade, tinha rugas na voz, mas as suas palavras sorriam quando o escutávamos.

Eram belas as suas histórias de uma vida passada no mar. Existiu em tempos um homem que se rodeava de mar. Hoje recordo o seu olhar. Os seus silêncios. A sua bondade.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Alex Bamford»

Sábado, Novembro 28, 2009

«O Labirinto»

E de novo se faz manhã. Esvoaçam tristezas por entre sorrisos de papel. Correm corações. Atrasados. Correm inutilmente em busca do passado. Somos muitos, todos juntos formamos a solidão. E todos ouvimos canções. Hipnotizamo-nos pelos ouvidos. As novas sociedades, de movimentos fragmentados, adormecem as suas almas, ao som de modas que ensurdecem os tímpanos.

Observo olhares estilhaçados que, momentaneamente, se refugiam noutros tão cansados quanto eles. Será que Deus ouve as nossas preces? Cada pessoa uma ilha, rodeada de um nevoeiro espesso que a cerca. Por vezes um movimento brusco quebra o enfado, é o fogo e o gelo num segundo, num sorriso fugaz. Uma alegria que perturba a correria, por entre os minutos empoleirados, encavalitados, de mais uma jornada. São estes os dias da solidão anunciada. Os violinos amortecem a queda, suavizam o choque com a dura realidade.

E de novo se faz noite. Os corpos recolhem às habitações por entre ventos adversos. Ouvem-se rumores de golpes profundos que se prolongam, arrastados. Alguém comenta, é lá longe, por sorte cá dentro está tudo bem. E assim, sentindo-se o piano lacrimejar nos poros da pele que se arrepia, as certezas tremulam. Deitam-se as crianças e acalmam-se as emoções que ainda restam nas artérias, para os restantes dias de felicidade. Para o derradeiro labirinto.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «André Lichtenberg»

Sábado, Novembro 21, 2009

«A Única Verdade»

Que poderei eu dizer? Eu sentia-me tão longe. Agitava-me por aí, disperso no interior do meu naufrágio. Vagueava tão perto do teu rosto, da tua respiração. Tão perto de te perder. Eu decompunha-me arredado das emoções. Os teus pés excediam as fronteiras, tocavam-me a alma, mas o meu pensamento, simplesmente, envelhecia. Ausente. Que mais poderei eu dizer? Sei que anoitecia e que nesses momentos te desbaratava, sempre que não pronunciava a verdade.

Agora, como poderei segredar-te tudo o que as minhas mãos reflectem? Recordo-me que amordacei as palavras como se de ignorância se tratasse. Hoje, depois da imensidão do deserto adormecer no meu destino, posso dizer-te o que, finalmente, reconheço. Amo-te.

Sim, foi sempre amor o que não fui capaz de navegar. E tanto que me doeu esconder de todos os braços, pernas, dos nossos corações, da nossa vida. Esconder de mim. O que ainda poderei dizer? Sei que não te poderei perder. Nem esta noite, nem nas marés que reflectem os múltiplos que convivem nas minhas entranhas, nem nas estrelas que reproduzem o teu olhar.

Quero-te sempre acordada para te falar de tudo o que deixei de dizer. Todos estes anos. Todos os livros e todas as canções. Todas as cidades. Quero-te perguntar se me perdoas, os minutos, as horas, a vida que demorei a aceitar esta minha, única, verdade. Amo-te.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Andreas Heumann»

Terça-feira, Novembro 17, 2009

«Ignorância»

Como é meu hábito
(ou tacitamente determinámos)
despedi-me de ti
com dois castos beijos:
doeram
como feridas nos pulsos.

Queria apertar-te
com furor juvenil
e não venci o medo.

Digo-te
agora
colorido
ser alado
aqui
nesta página
onde
por fim
metaforicamente
matei a cobardia:
amo-te

in «54 poemas de amor e 5 de maledicência» de «Salvato Telles de Menezes»
foto de «Anne McAulay»

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

«Estação»

No derradeiro momento, ao derradeiro olhar, desvaneceu-se a mágoa por entre filigranas desenhadas na sombra. Os meus sentidos residiam no limite da melancolia e tu sabias que a minha fuga seria inútil. Trajavas o meu destino. E como era sublime o teu corpo delineado nesse destino que me determinava o tempo.

O ruído do comboio abeirando-se daquela época, cortava a neblina onde resguardavas as emoções. Do outro lado do sonho, a minha verdade era a chuva que em caudal se derramava no meu coração. Disseste-me para esquecer Paris e, somente, fugir com o teu futuro, sem mapa, só a minha mão na tua. Corrermos os dois até onde a coragem nos permitisse.

Falei-te com o olhar triste, os olhos moídos nos sulcos da vida. Não te dei esperança. Retirei a juventude do nosso caminho e mostrei-te um rumo com os ossos a gemer e a surdez vivida a dois. Deixei que todos os comboios partissem e ficássemos a sós na estação. Era Outono e as folhas das árvores animavam o dia em tons envergonhados. Desprezei o peso do esquecimento e improvisei a minha melhor pronuncia.

O teu olhar desvaneceu a minha absoluta solidão e disse-me que poderíamos utilizar aquele mesmo cais, para partir rumo a um destino renovado. Um derradeiro destino. Os dois. As minhas mãos sorriram, como nunca o meu coração as tinha visto sorrir. Pegaram no teu corpo, e no destino que o vestia, e decidiram dar uma oportunidade ao coração, contagiando-o com o teu futuro.

Abandonando as memórias queimadas, o teu sorriso beijou as estrelas e apagou a luz que delas emanava. Colámos os corpos e adormecemos num único sonho. O nosso.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Aníbal Gonçalves»

Sábado, Novembro 14, 2009

«A Palavra»

(...) Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? como se desfez? ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.

in «Para Sempre» de «Vergílio Ferreira»
foto de «Andreas Heumann»

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

«O Carrossel»

Por entre a multidão, o Carrossel desceu à cidade e as emoções estacionaram perante a surpresa do festejo. Ecoaram pelas avenidas as irrecusáveis concertinas. Num repente todas as fugas convergiram para ilhas que transbordaram em sorrisos. E todos esses abrigos abarrotaram de embriagados que dançaram violinos.

Por minutos ou mesmo horas, o silêncio suspendeu a sua labuta, e corações, tantos, remendaram-se entre si numa fileira desmesurada. A cidade emocionou-se e, em lágrimas, vestiu-se com esses corações. O Carrossel fez múltiplas viagens onde, por entre fantasias diversas, anunciava: “é andar, é andar, no Carrossel mágico sem parar”. Era tanto o encanto, que se projectavam almas, por entre árvores que rodopiavam envoltas no som inebriante dos acordeões.

E eram sorrisos, corações remendados, árvores e almas, todos inteiros, tantos, às voltas e voltas, enquanto nas avenidas ecoavam as irrecusáveis concertinas e os inebriantes acordeões. E assim, por minutos ou mesmo horas, os corações somente se extasiaram. Unicamente.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Alex Bamford»

Escrito ao som de "Devotcha" - "How it Ends"

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

«A Partilha»

Existem dias assim. Dias em que toda a humanidade se recolhe nas minhas emoções e sinto poder oferecer a melancolia que me veste e me ampara o sono. Nestes dias, libertam-se os dedos à procura de quem aceite trocá-los. Eu gosto de trocar os dedos e oferecer conchas multicores onde se possam escutar canções de bem-querer e amizade.

Provavelmente não saberei sorrir com os olhos ou oferecer os melhores músculos do rosto. Talvez este despovoado que comigo dança há já tanto sangue, afaste os que duvidam.

Mas existem dias assim. Dias em que persisto na procura daqueles que acreditam na permuta da solidão que existe em cada um de nós. Partilhada. Cantada.

Antes dos afectos se encarquilharem de velhice nas margens do irreal. Existem dias assim. Dias em que ardo em silêncio e confio que a nossa gente será permissível ao sonho.


in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «Anne McAulay»

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

«Estio»

Se eu adormecer
não me censures

Sai
e deixa-me entregue
aos sonhos

Vai
sentar-te
no campo
onde
se morre maduro

E
espera-me
para treparmos

árvores
e colhermos
ninhos

in «Poesia» de «Daniel Faria»
foto de «Anna Pagnacco»

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

«O Sol»

A canção morrera.
O meu pensamento silenciava cidades e
o corpo que habitava o frio, procurou agasalho no teu futuro.

Sorriste.

Não me recordo de jardim tão belo.
Toquei-te a alma e cresceram-te anzóis no cabelo.

Mergulhei no rio, segui o seu caudal, inquietei todos os peixes.

No entretanto, enlouqueci.

Os teus braços prolongaram-se em busca do meu olhar.
O horizonte reflectiu as florestas que o teu desespero gerou.

Sendo testemunha o Sol desejou beijar-nos e
inflamou searas à procura da minha sombra.

Tardiamente.

A solidão tinha saqueado todas as emoções.
Dedos cobertos de neve tinham fantasiado os meus dias.

Eu atormentara o destino e desfizera-me no tempo.

in «Penitências de um Ser no Anonimato» de «Francisco»
foto de «LJAD Creyghton»

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

«a púrpura dos dias»

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra

nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.

in «Um Mover de Mão» de «Vasco gato»
foto de «Anno Pieterse»